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Com 3ª maior média de casos e mortes por Covid-19 do Paraná, secretários de saúde do litoral alertam

Levantamento feito pelo G1 com seis das sete cidades aponta que a principal dificuldade é com a transferência de pacientes graves. Litoral tem 24.566 casos e 502 mortes desde o começo da pandemia.

'Situação do litoral do Paraná é de caos', alertam secretários de saúde. — Foto: Almir Alves/Arquivo pessoal

A regional de saúde do litoral do Paraná tem a terceira maior média de casos por 100 mil habitantes, conforme dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), de terça-feira (23). Na avaliação de seis dos sete representantes da saúde dos municípios ouvidos pelo G1, a situação é de caos, com hospitais e unidades de atendimento para Covid-19 saturados.


As sete cidades do litoral têm 24.566 casos e 502 mortes desde o começo da pandemia, segundo dados desta terça-feira (23), da Sesa. Segundo os dados da secretaria, o litoral tem 8.193 casos a cada 100 mil habitantes.

A incidência de casos só não e maior do que a regional de Foz do Iguaçu, onde são 10.978 casos por 100 mil habitantes, e da regional de Toledo, com 8.978 casos por 100 mil habitantes. O estado do Paraná é dividido em 22 regionais de saúde.

Com a média de mortes, o litoral é a segunda regional com maior número, com 167,4 mortes a cada 100 mil habitantes, segundo a Sesa. Neste caso, Foz do Iguaçu lidera com 183,3 mortes a cada 100 mil habitantes.


O que dizem os secretários de Saúde

Segundo os representantes da saúde de seis das sete cidades ouvidos pelo G1, a principal dificuldade é com a transferência de pacientes graves. Junto disso, o aumento de casos tem levantado alarme.


Guaratuba, a segunda maior cidade do litoral, sentiu que desde o começo da pandemia a cidade nunca tinha lidado com tamanha alta nos casos. Segundo o secretário de saúde de Guaratuba, Gabriel Modesto, isso aconteceu por causa da variante brasileira do vírus.

“Recebemos muitos pacientes e, embora não tenhamos a testagem, atribuímos a essa variante brasileira do vírus. Pessoas que chegam mais graves e de faixa etária mais baixa. Diferente do ano passado, não estamos mais conseguindo dar vazão aos pacientes e essa é a nossa maior dificuldade”, detalhou Gabriel.


A falta de leitos, que tem preocupado o estado inteiro, também é motivo de atenção no litoral. Em Antonina, por exemplo, o secretário de saúde Odileno Garcia Toledo contou que a cidade já perdeu, pacientes que esperavam por leitos.

“O último caso foi na semana passada. Uma pessoa que estava a espera de um leito morreu, porque não conseguiu a vaga. É triste demais”, disse Odileno.


Outra preocupação dos municípios é com relação aos medicamentos. O secretário de saúde de Matinhos, Paulo Henrique de Oliveira, disse que todas as cidades do litoral vivem um momento crítico.

“A situação é o caos, não só para Matinhos mas para todo o litoral. Há um desabastecimento, tanto na questão do oxigênio, sedativos para os pacientes, sobrepreço destes itens. Isso coloca em escassez tanto os recursos físicos, quanto financeiros”, explicou Paulo.

Das sete cidades do litoral, apenas a Secretaria de Saúde de Paranaguá - que tem 156.174 habitantes, segundo o senso do IBGE de 2020 - não aceitou dar entrevista e não respondeu aos questionamentos do G1. Conforme os seis representantes da saúde ouvidos pela reportagem, as barreiras e medidas restritivas foram inevitáveis para conter a elevação nos casos.

‘Acreditem no vírus’, diz rapaz que perdeu o pai

Com os casos aumentando, os secretários de saúde temem que o colapso acabe tomando conta do litoral. Com isso, pessoas podem morrer sem, sequer, um atendimento, como destacou o secretário de saúde de Guaratuba, Gabriel Modesto.


Leonardo Alves Cavalcanti, 21 anos, filho do sargento Cavalcanti, que tinha 46 anos e morreu em 25 de fevereiro, vítima da Covid-19, em Paranaguá, disse que não faltou atendimento para o pai. Mas isso porque seu quadro se agravou um pouco antes da situação no litoral piorar.


“Ele foi para o hospital aproximadamente duas semanas antes de um pico que teve, quando precisou ser internado e intubado tinha vaga no hospital. Ele teve todo o atendimento e morreu um pouco antes do pico, mas se fosse agora não sabemos como seria. Em Paranaguá tem aparecido enfrentado muitos casos”, comentou Leonardo.


O rapaz contou que o pai, que tinha tomado a primeira dose da vacina contra a Covid-19, por ser militar, ficou 10 dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional.

“Ele entrou sem nenhuma infecção, sem nenhuma bactéria, era só a Covid-19 mesmo. Mas foi o suficiente para matá-lo”.

Leonardo pediu que as pessoas fiquem em casa e sigam as orientações tão faladas ao longo do último ano, como usar máscaras, lavar as mãos, passar álcool gel e o distanciamento.

“A gente só sente verdadeiramente, quando é alguém próximo que vai embora. Só nós sabemos a dor que é perder alguém da família. Não queiram experimentar essa dor e insistam nos cuidados. Acreditem no vírus e no potencial destrutivo que ele tem”, concluiu o rapaz.


Guaratuba

Em Guaratuba, que tem 37.527 habitantes, o pronto-socorro municipal foi adaptado para atender somente casos de Covid-19. Ao todo são 20 leitos covid, 8 deles com suporte para intubação e, nesta segunda-feira, a cidade tinha 15 pessoas internadas, cinco delas com ventilação mecânica.


A transferência de pacientes, conforme o secretário de saúde, é a maior dificuldade de Guaratuba. Nesta segunda-feira, por exemplo, oito pacientes aguardavam vagas, alguns há mais de 24h.


"Nunca tivemos o perfil de permanecer com o paciente intubado aqui, ele saía daqui em menos de 12h. Estes pacientes demandam muito uso de medicação, que não era perfil do município usar. Um remédio usado na intubação que, por exemplo, usávamos 200 ampolas por ano, hoje esse consumo não dá para uma semana. Mas sabemos que não há vagas e que o sistema de saúde está sobrecarregado, não tem jeito”, disse Gabriel Modesto.


Segundo o secretário de saúde, a compra de medicamentos, principalmente remédios para manter os pacientes intubados, tem sido difícil.


"Temos dificuldade com aquisição de anestésico, conseguimos comprar, mas não em volume que precisávamos. Os municípios do litoral estão trabalhando de forma conjunta, então teve momento que emprestamos remédios para algumas cidades, outras nos emprestaram equipamentos. A gente tem se unido para lidar nesse momento”.


Com oxigênio, Guaratuba não teve problemas. “A empresa tem suprido as necessidades, ampliaram os dias de entrega e têm vindo assim que a gente pede. Estamos tendo certo controle”, comentou Gabriel Modesto.


O lockdown na cidade, durou 77 horas, na avaliação do secretário de saúde, teve uma adesão excelente da população. "Observamos que o comércio aderiu em peso, apenas um mercado foi interditado. Agora continuamos com as restrições, inclusive com as barreiras sanitárias e praias interditadas”.


Conforme Gabriel Modesto, o serviço de saúde está saturado, os profissionais têm dificuldade de fazer o manejo dos pacientes e o alerta é para que as pessoas não desçam ao litoral.

"Se há um momento de se cuidar, o momento é esse. As pessoas tem que insistir nas medidas de cuidado, porque relaxaram ao ver esse falso controle da pandemia no fim do ano passado, e agora não conseguimos ter esse controle. Não adianta descer [para o litoral], porque não temos a mesma possibilidade de atendimento da capital”.

Guaraqueçaba

Em Guaraqueçaba, a situação está sob controle, segundo o secretário de saúde Alcendino Ferreira Barbosa. Apesar disso, nesta segunda-feira (22), a cidade tinha dois pacientes internados, um deles precisando de transferência urgente, com saturação baixa.

O secretário contou que a a principal dificuldade em Guaraqueçaba é com pessoal para trabalhar e também de estrutura.

"O município é composto por 19 ilhas e 22 comunidades rurais, todas com difícil acesso. Por isso, temos dificuldades com número de pessoal, além de que estamos em início de gestão e estamos com equipamentos e veículos sucateados”, explicou.

Segundo Alcedino, a cidade sentiu com a falta de medicamentos. "Alguns antibióticos, mas logo será sanado”.


Matinhos

Matinhos, que tem 35.219 habitantes, foi o primeiro município a adotar medidas restritivas, inclusive de barreiras, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Conforme o secretário Paulo Henrique de Oliveira, a decisão trouxe certo conforto no enfrentamento à pandemia.

”Graças às medidas que tomamos no dia 26 de fevereiro, conseguimos uma diminuição efetiva dos casos, o que nos permitiu, por exemplo, não precisar fechar tudo".

Mesmo assim, nesta segunda-feira, Matinhos tinha cinco pacientes internados: um intubado e quatro fazendo uso de oxigênio continuo.


Embora não faltem equipamentos, conforme o secretário, a prefeitura teve que fazer um esforço para ampliar os atendimentos. "Triplicamos o número de leitos, porque tínhamos pacientes aguardando até para ficar em observação. Tínhamos um médico para atendimento, hoje ampliamos para três médicos de dia e dois à noite".


O secretário de saúde da cidade, que é responsável por um hospital e maternidade e também por uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no balneário Praia Grande, alertou que as pessoas não devem se expor ao vírus agora.

“Nós nos antecipamos, até mesmo nas medidas restritivas, para que não haja nenhuma situação de se perder uma vida por falta ou omissão do poder público. Mas também precisamos do apoio da população”.


Pontal do Paraná

A cidade de Pontal do Paraná transformou o pronto-atendimento (PA) em ala Covid-19 e deixou outra unidade de atendimento em Shangrila para casos gerais. Por lá, nesta segunda-feira, eram cinco pacientes e nenhum intubado, mas dois com quadros graves esperando vagas de UTI, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.


A maior dificuldade no município, conforme a secretária de saúde Carmen Moura, é não conseguir transferir os pacientes graves.

“Antes, o paciente grave conseguia vaga e era mandado para o hospital, agora tem que ficar três ou quatro dias até sair uma vaga. Como a nossa estrutura não é a hospitalar, a situação se agrava e dificulta até mesmo para os pacientes”.

Nos últimos dias, a demanda por atendimentos aumentou e, com isso, também a sobrecarga dos funcionários. Segundo a secretaria, o que está acontecendo hoje é o que as equipes da saúde mais temiam no ano passado.


“O maior problema hoje é o agravamento do quadro. Nós tivemos, por um ano, como segurar esse momento, agora o que está acontecendo é o que tínhamos medo lá atrás. O sistema não dá conta de atender todos os casos”


Em Pontal do Paraná, que tem 27.915 habitantes, pacientes do grupo de risco positivados pela Covid-19 têm recebido vistas diárias, segundo a secretária. “Fazemos o monitoramento da oximetria, porque aí conseguimos identificar sinais de agravamento precocemente. Nossa maior angustia é não ter leitos de UTI para mandar estes pacientes".


Ainda em Pontal, a técnica de enfermagem Rosiane Denise Basilio, 41 anos, disse que a cidade estaria faltando oxigênio, equipamentos, medicamentos e até suprimentos para os profissionais como luvas e máscaras.

"Não temos mais condições físicas, nem mentais, para trabalhar. 15 anos trabalhando, nunca vi nada parecido, é uma doença que deixa a gente impotente, não tem o que fazer. Estão brincando com os pacientes”, disse a técnica de enfermagem.

À reportagem, a secretária de saúde disse que a cidade não tem falta de equipamentos, nem de oxigênio. Ela explicou que os insumos para os profissionais são liberados, mas com controle.


“Respirador, por exemplo, chegamos a emprestar um para Guaratuba porque precisavam e não poderíamos deixar uma pessoa precisando se estávamos sobrando. O oxigênio tem sido reposto diariamente, ainda não tivemos falta, mas tivemos que fazer adaptações porque o paciente no ventilador gasta muito. Os suprimentos, como luvas, estão disponíveis, mas não fica um estoque de materiais, é reposto conforme a necessidade”, disse Carmen Moura.


Sobre os medicamentos, a secretária de saúde de Pontal do Paraná disse que a preocupação existe.

"Ao mesmo tempo, estamos tentando fazer compras de insumos e medicamentos. Assinamos um documento autorizando a compra de medicamentos pelo consórcio de municípios, porque não sabemos por quanto tempo vai durar”, disse a secretária de saúde de Pontal.

Segundo Carmen Moura, a realidade é muito crítica, mas não é exclusiva de Pontal.

"Não só no litoral, mas aqui ainda tem o agravante pelo fluxo de pessoas. Temos pessoas morrendo pela doença e pessoas passando fome, vivemos numa angustia enorme. Existem problemas? Existem. Falta estrutura? Falta. Mas não somos hospital e temos feito o que podemos. Era um momento que não esperávamos chegar”, desabafou.

Antonina

Antonina vive uma realidade um pouco melhor do que as outras cidades do litoral, segundo o secretário de saúde Odileno Garcia Toledo. Na segunda-feira, por exemplo, a cidade não tinha nenhum paciente internado com Covid-19.


Segundo o secretário de saúde, a cidade de 18.949 habitantes tem registrado uma grande procura de atendimento de pacientes com dificuldade de respirar.


"Temos dois locais de atendimento, um que é a ala Covid anexa ao hospital, e o outro que é um centro de enfrentamento. A quantidade de atendimentoS aumentou significativamente, o hospital tem recebido uma média de 15 pacientes e o centro de 30 a 40 por dia”.


O secretário de saúde contou que a cidade tem enfrentado dificuldade em comprar medicamentos, desde o mais simples até os anestésicos ou antiinflamatórios.

"As empresas querem vender para hospitais de referência, que comprem em grande quantidade. Quando pedimos pouca coisa, nem mandam orçamento. Os municípios pequenos sentem essa dificuldade".

Com isso, Antonina tem sofrido com falta de alguns remédios. "Isso sem contar o sobrepreço. Antes comprávamos uma caixa de luva, por exemplo, a R$ 20. Hoje está a R$ 120. Uma ampola de um remédio importante na sedação custava em média R$ 6 e estão vendendo a R$ 58".


Mesmo com as dificuldades, o secretário afirmou que a situação de Antonina pode ser considerada sob controle.

"Estamos conseguindo manter os pacientes. Nossa maior dificuldade é com os casos graves, quando temos”.


Morretes

Assim como em Antonina, Morretes também tem conseguido manter a situação da Covid-19 sob controle. Nesta segunda-feira, dois pacientes aguardavam vaga para transferência e isso é a maior dificuldade do município, segundo o diretor do hospital da cidade, Manoel Medeiros Machado.

"Consigo prestar o primeiro atendimento, tento estabilizar, mas mais do que isso não temos como fazer. Os pacientes são intubados, mas precisam de suporte mais avançado em hospital, e a nossa grande dificuldade é conseguir transferência”, explicou.

Segundo Manoel, metade do hospital da cidade atende Covid-19 e a outra parte continua com o pronto-atendimento. A preocupação é com a alta na demanda dos casos.

"Tenho apenas dois respiradores, um que funciona por completo e outro que não tem o monitor, mas que dá para ser usado. Mantemos a situação sob controle, mas dentro do limite”.

Morretes tem 16.446 habitantes e sentiu falta de remédios, principalmente para manter os pacientes intubados.

"Ainda temos medicamentos, dentro da nossa realidade de suporte, mas estamos com departamento acionado, até mesmo para compra de oxigênio, pois tememos o colapso a curto prazo”.


Manoel Medeiros Machado alertou que não é o momento de as pessoas saírem de casa. E pontuou quatro aspectos que explicam sua avaliação.


"Temos a vacina para todos? Temos vagas em hospitais que posam dar suporte? Conseguimos respiradores para dar suporte mínimo na cidade? Hoje conseguimos com facilidade comprar remédios? Para todas estas perguntas a resposta é não. Então o melhor remédio neste momento é manter, aqueles que podem, o isolamento social e as medidas tão divulgadas ao longo do último ano”.


O G1 procurou a Secretaria de Saúde do Paraná (Sesa) para comentar sobre a preocupação com a transferência de leitos. Até o fechamento da reportagem, não obteve resposta.

Fonte: G1 Paraná

https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2021/03/24/com-3a-maior-media-de-casos-e-mortes-por-covid-19-do-estado-secretarios-de-saude-do-litoral-do-parana-alertam-situacao-e-o-caos.ghtml

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