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Volta às aulas no Paraná

Protocolos priorizam limpeza, minimizam detalhes sobre ventilação, e especialistas alertam sobre riscos


Especialistas afirmam que desproporção pode gerar um entendimento errado sobre como se proteger contra a Covid-19.

Escola de Curitiba passa por sanitização sanitização com amônia quaternária — Foto: Daniel Castellano/SMCS

Protocolos de volta às aulas da rede estadual de ensino do Paraná e das redes municipais de Curitiba, Maringá, Cascavel, Umuarama e Ponta Grossa falam muito sobre higienização de superfícies e pouco sobre ventilação dos ambientes, de acordo com especialistas.


A resolução da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) e o protocolo da Secretaria Estadual de Educação (Seed) sobre a volta às aulas têm o triplo de orientações sobre desinfecção e higienização de objetos e ambientes do que recomendações sobre ambientes ventilados ou atividades ao ar livre.

No caso de Curitiba, onde as atividades presenciais voltaram na segunda-feira (22), o protocolo tem mais de 60 orientações sobre higienização de objetos e ambientes e 13 medidas relacionadas à ventilação.

Em Maringá, são 20 orientações sobre higienização de superfícies e oito sobre ventilação. Em Umuarama, são seis recomendações sobre desinfecção de objetos e ambientes, e uma sobre ventilação. Em Cascavel são 13 medidas orientando sobre a manutenção de ambientes arejados e 34 sobre limpeza de objetos. O protocolo de Ponta Grossa, único que tem um item dedicado exclusivamente à orientações de ventilação, tem o dobro de recomendações sobre desinfecção de ambientes do que sobre ventilação.

Segundo os cientistas ouvidos pelo G1, a ventilação, aliado ao uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento, é uma das medidas mais importantes para diminuição dos riscos de contaminação pelo coronavírus.


Alunos realizam atividade ao ar livre, em Ponta Grossa — Foto: Divulgação/Prefeitura de Ponta Grossa

O distanciamento dos alunos e professores são as medidas mais frequentes mencionadas nos protocolos estaduais e municipais de volta às aulas.


Por outro lado, de acordo com os especialistas, a desinfecção das salas de aula, mesas, brinquedos, mochilas e calçados é pouco eficiente para combater o coronavírus. Publicações nas revistas Nature e Lancet, duas das publicações científicas mais importantes do mundo, apontam que a transmissão se dá, principalmente, pelo ar e raramente por superfícies de objetos.


As recomendações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), atualizadas em dezembro de 2020, não mencionam a higienização de superfícies como uma das seis medidas de prevenção eficazes para diminuição dos riscos de infecção. Veja as orientações da SBI.

Segundo a entidade, as medidas são:

  • Uso de máscara;

  • Distanciamento físico de 1,5 metro;

  • Higienização frequente das mãos com água e sabão ou gel 70%;

  • Não participar de aglomerações;

  • Manter ambientes arejados/ventilados;

  • Isolamento de pacientes com sintomas respiratórios.



Segundo o doutor em engenharia biomédica, pesquisador da Universidade de Vermont (EUA) e membro do Observatório Covid-19, Vitor Mori, é arriscado que as orientações priorizem medidas menos eficientes.

"Quando um protocolo tem páginas falando sobre desinfecção de superfícies e uma nota falando de ventilação, é claro que a mensagem que vai chegar é que a higienização é mais importante, o que é um equívoco" afirmou Mori.

A médica epidemiologista do Instituto Sabin e ex-integrante do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, Denise Garrett, afirma que o foco excessivo em medidas de desinfecção de ambientes promove uma "falsa sensação de segurança".


"Isso promove um entendimento errado sobre como se prevenir. Você pode desinfetar uma sala de aula a cada meia hora, que não é isso que vai ajudar a prevenir a contaminação. É uma medida muito pouco eficaz", disse a médica.

Escola é desinfetada antes do retorno das atividades presenciais, em Curitiba — Foto: Daniel Castellano/SMCS

Transmissão pelo ar

Segundo o professor do departamento de Física da Universidade Tecnológica do Paraná (UTFPR) e coordenador de um laboratório de nanotecnologia com foco em saúde pública, Arandi Bezerra, a principal via de transmissão do vírus se dá por aerossóis, que ficam suspensos no ar.


"Ambientes fechados sempre oferecem risco. Como há muitas escolas em má condições estruturais, seria necessário fazer adaptações e estudos para melhorar a ventilação dos ambientes, instalar exaustores", afirmou Bezerra.

De acordo com a médica epidemiologista Mônica Garrett, as orientações sobre ventilação geralmente são pouco detalhadas porque exigem, muitas vezes, intervenções de engenharia e recomendações mais complexas.


"É preciso um monitoramento especializado para medir o quanto de ventilação uma sala precisa para que haja renovação do ar. É preciso um esforço grande, com maior investimento financeiro", disse Mônica.

Atualização nas orientações

O pesquisador do laboratório Covid-19 Vitor Mori acredita que os protocolos continuam falando excessivamente da desinfecção de ambientes porque muitas orientações seguem recomendações dadas no início da pandemia, quando os cientistas ainda estudavam como o coronavírus se comportava.


"A própria OMS só admitiu em julho de 2020 que a transmissão se dava pelo ar, quando mais de 200 cientistas do mundo todo enviaram uma carta cobrando mudança nas orientações", disse Mori.

Dicas

Além dos protocolos estabelecidos, algumas medidas podem ser adotadas para diminuir os riscos de contaminação do coronavírus.


Para os professores, que passam mais tempo dentro das salas de aula do que os alunos, a recomendação é tentar usar máscaras melhores, como as de padrão PFF2, que oferecem uma proteção maior do que as máscaras caseiras.


"As máscaras de melhor qualidade nem sempre são acessíveis, o uso pode ser incômodo no começo, a voz fica abafada, mas são elas que oferecem uma proteção mais efetiva quando não é possível realizar atividades ao ar livre ou garantir uma boa ventilação", afirmou Vitor Mori.


Para os estudantes, crianças ou adolescentes, o pesquisador orienta que usem máscaras de pano bem ajustadas ao rosto, com o máximo de vedação possível.


Aos pais, a médica epidemiologista Denise Garret orienta que o mais importante é o compromisso de não mandar as crianças às aulas caso alguém da família apresente sintomas.

"É preciso de engajamento de todos. A transmissão do vírus por assintomáticos é frequente", afirmou.


Desde o começo da pandemia, o Paraná registra 628.999 casos confirmados e 11.380 mortes provocadas pela Covid-19, de acordo com boletim da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), publicado na quinta-feira (25).


O número de internações de casos suspeitos e confirmados bateu um novo recorde, com 3.376 pacientes hospitalizados, na rede pública e particular de saúde.

O que dizem as prefeituras e o governo

O diretor do centro de epidemiologia da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Alcides Oliveira, afirmou que o protocolo da cidade foi montado em conjunto com vários profissionais de várias áreas, como médicos e professores, e que leva em conta orientações de diversos órgãos, inclusive outros estados e países.


"Além das melhores práticas, como a ventilação, distanciamento e outras medidas, nós também contemplamos a expectativa dos professores, com o que eles nos passaram que faria com que se sentissem mais seguros", afirmou Oliveira.


Segundo o diretor, o protocolo da cidade contempla todas as orientações, mas pode ser alterado conforme o andamento da pandemia.


"São situações muito diferentes que vamos enfrentar, então temos que detalhar e até sermos repetitivos nestes protocolos, mas é claro que eles podem ser revistos e atualizados sempre que for necessários", disse.


A Secretaria Municipal de Educação de Ponta Grossa disse que considerou todas as publicações dos órgãos competentes, nacionais, estaduais e locais para a confecção das orientações e que o protocolo engloba todas as recomendações feitas pelos especialistas.


O órgão afirmou que "por se tratar de um documento amplo, algumas ações demandam mais conteúdo descritivo, mas a secretaria considera que estão todos contemplados" e que "a ventilação dos ambientes, inclusive, dispõe de um item específico, além de estar presente em outros", com orientação de atividades ao ar livre.


A Secretaria informou que o protocolo não é um documento definitivo, que o plano está em permanente aprimoramento e que adotará novas ações sempre que for pertinente, seguindo os protocolos de consenso, baseados em evidências científicas.


A Secretaria Estadual da Educação (Seed) informou que o protocolo estadual de retorno às aulas foi montado com base em uma resolução a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).


O G1 aguarda o retorno da Sesa, das prefeituras de Ponta Grossa, Maringá, Umuarama e Cascavel e da Sociedade Brasileira de Infectologia.


Fonte: G1 Paraná

https://g1.globo.com/pr/parana/educacao/noticia/2021/02/26/volta-as-aulas-no-parana-protocolos-priorizam-limpeza-minimizam-detalhes-sobre-ventilacao-e-especialistas-alertam-sobre-riscos.ghtml


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